sexta-feira, 15 de junho de 2012

Pilar com Portas e Janelas


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       Os umbrais da casa eram simples, diferentes dos do solar em azul colonial por cuja calçada passava o escritor José Lins do Rêgo para ir ao Correio e onde morava, ainda meninota, a atriz Zezita Matos. Havia apenas uma porta e uma janela. Sair e entrar pela janela somente eu fazia; usava a porta aos olhos dos pais ou quando íamos a algum passeio e à missa aos domingos. Se chovia em Pilar, imaginava caindo chuva também em todo o mundo porque, naquela pequena cidade,  se encerrava todo o meu mundo: pular a janela significava sair para esse mundo de ruas avizinhadas, mas longas e distantes na imaginação de menino.  A mãe Lia dizia: “quem pula janela foge de casa”. Enfrentava essas aventuras proibidas, sob ameaça de castigo, mas só possíveis “fugindo” pela janela.  A chuva fechava a janela, trancando-me em casa, impedindo-me de sentir o cheiro da terra, pisar poças d’água, tomar banho de biqueira ou vagar pelos becos lavados.

      Sair pela porta, depois do banho e de roupa trocada, significava, com advertências, brincar na calçada sob as vistas do pai Inácio, como na tarde de pegar tanajura, gritando: “cai, cai, tanajura, que é tempo de gordura”.  A cadeia e a igreja de Pilar disputavam as maiores distâncias da cidade, confrontando-se, uma vendo a outra, mas como eram longe!  A cadeia, contava a lavadeira Rita de Joselino, “era casa e tinha abrigado o rei e sua corte”. Anos depois, corrigiu-me a escola de que se tratava do Imperador Dom Pedro II que, em 1859, com toda pompa e circunstância, resignou-se à simplicidade do lugarejo. Maior importância dava eu aos presos, alguns trazidos da roça, “bandidos” como os “fora da lei” do faroeste assistido no Mercado, embora o delegado da cidade não usasse a pose nem a estrela do xerife do cinema. Espiava pelos buracos quadriculados da enorme janela, fechada pela grade de ferro, pintada de verde, agarrada pelas mãos prisioneiras desejosas de liberdade e, como eu, de escapar pela janela.  A prisão encorajava aproximar-me daqueles “homens perigosos”, com caras de gente bruta, mais parecidas com a vingança do que com o arrependimento.
     
       Lamentável é vermos portas e janelas dos antigos casarões da nossa cidade sendo substituídas por tijolos de oito furos e cimento, afrontando a memória da rua, dos que entraram e saíram por elas ou dos que conquistaram amores decotados nelas debruçados. Saudade das velhas casas, não apenas por serem antigas, mas sobretudo,  casa  que, para ser casa, tenham portas e janelas...

DAMIÃO RAMOS CAVALCANTI
(Da Academia Paraibana de Letras)

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