Os umbrais da casa
eram simples, diferentes dos do solar em azul colonial por cuja calçada
passava o escritor José Lins do Rêgo para ir ao Correio e onde morava,
ainda meninota, a atriz Zezita Matos. Havia apenas uma porta e uma
janela. Sair e entrar pela janela somente eu fazia; usava a porta aos
olhos dos pais ou quando íamos a algum passeio e à missa aos domingos.
Se chovia em Pilar, imaginava caindo chuva também em todo o mundo
porque, naquela pequena cidade, se encerrava todo o meu mundo: pular a
janela significava sair para esse mundo de ruas avizinhadas, mas longas e
distantes na imaginação de menino. A mãe Lia dizia: “quem pula janela
foge de casa”. Enfrentava essas aventuras proibidas, sob ameaça de
castigo, mas só possíveis “fugindo” pela janela. A chuva fechava a
janela, trancando-me em casa, impedindo-me de sentir o cheiro da terra,
pisar poças d’água, tomar banho de biqueira ou vagar pelos becos
lavados.
Sair pela porta, depois do banho e de roupa
trocada, significava, com advertências, brincar na calçada sob as vistas
do pai Inácio, como na tarde de pegar tanajura, gritando: “cai, cai,
tanajura, que é tempo de gordura”. A cadeia e a igreja de Pilar
disputavam as maiores distâncias da cidade, confrontando-se, uma vendo a
outra, mas como eram longe! A cadeia, contava a lavadeira Rita de
Joselino, “era casa e tinha abrigado o rei e sua corte”. Anos depois,
corrigiu-me a escola de que se tratava do Imperador Dom Pedro II que, em
1859, com toda pompa e circunstância, resignou-se à simplicidade do
lugarejo. Maior importância dava eu aos presos, alguns trazidos da roça,
“bandidos” como os “fora da lei” do faroeste assistido no Mercado,
embora o delegado da cidade não usasse a pose nem a estrela do xerife do
cinema. Espiava pelos buracos quadriculados da enorme janela, fechada
pela grade de ferro, pintada de verde, agarrada pelas mãos prisioneiras
desejosas de liberdade e, como eu, de escapar pela janela. A prisão
encorajava aproximar-me daqueles “homens perigosos”, com caras de gente
bruta, mais parecidas com a vingança do que com o arrependimento.
Lamentável é vermos portas e janelas dos antigos
casarões da nossa cidade sendo substituídas por tijolos de oito furos e
cimento, afrontando a memória da rua, dos que entraram e saíram por elas
ou dos que conquistaram amores decotados nelas debruçados. Saudade das
velhas casas, não apenas por serem antigas, mas sobretudo, casa que,
para ser casa, tenham portas e janelas...